O sensor FreeStyle Libre — um dispositivo de monitoramento contínuo de glicose (MCG) — tornou-se indispensável para pacientes diabéticos, especialmente aqueles com Diabetes tipo 1 ou tipo 2 de difícil controle. Quando o plano de saúde nega o fornecimento desse insumo, as famílias se deparam com uma situação de risco concreto à saúde. A boa notícia é que os tribunais brasileiros têm posição firme em favor do beneficiário nessa matéria.

Por que os planos negam o FreeStyle Libre

Os principais argumentos utilizados pelas operadoras para negar o sensor são:

  • O dispositivo não estava previamente incluído no Rol da ANS como insumo obrigatório
  • O contrato prevê apenas o fornecimento de glicosímetro convencional (fitas reagentes e lancetas)
  • O sensor é considerado equipamento e não insumo, estando excluído contratualmente

Esses argumentos têm sido sistematicamente afastados pelos tribunais, com base em três pilares: a natureza do bem jurídico envolvido (saúde e vida), a atualização regulatória da ANS e a jurisprudência consolidada sobre o Rol de procedimentos.

O que diz a ANS sobre o monitoramento contínuo

A ANS atualizou seu posicionamento sobre sistemas de monitoramento contínuo de glicose. A RN 539/2022 incluiu no Rol o Sistema de Monitorização Contínua da Glicose (SMCG) para pacientes com indicação médica específica, incluindo:

  • Diabetes tipo 1 em uso de bomba de infusão de insulina
  • Pacientes com episódios de hipoglicemia grave ou assintomática
  • Gestantes com diabetes (pré-gestacional ou gestacional) em uso de insulina
  • Crianças e adolescentes com Diabetes tipo 1

Mesmo para pacientes que não se encaixam exatamente nos critérios listados pela ANS, o STJ (Tema 1082) e a Súmula 102 do TJSP permitem a extensão da cobertura quando há evidência científica reconhecida e indicação médica documentada.

Como os tribunais têm decidido

O TJSP e o STJ possuem precedentes claros favoráveis ao fornecimento do FreeStyle Libre pelos planos de saúde. Os fundamentos mais utilizados são:

  • Abusividade da negativa — A recusa ao fornecimento de insumo com indicação médica, capaz de prevenir complicações graves (amputações, insuficiência renal, retinopatia), é considerada abusiva nos termos do CDC
  • Princípio da integralidade — O plano de saúde não pode cobrir a doença (diabetes) e simultaneamente negar o insumo essencial para seu controle adequado
  • Evidência científica — Estudos publicados demonstram que o monitoramento contínuo reduz significativamente o tempo em hipoglicemia e melhora o controle glicêmico, especialmente em Diabetes tipo 1
"É abusiva a recusa do plano de saúde em custear insumos necessários ao tratamento do diabetes, quando expressamente indicados pelo médico assistente, por configurar violação ao princípio da boa-fé contratual e ao Código de Defesa do Consumidor." — TJSP, jurisprudência reiterada

Documentos essenciais para a ação

A força da ação judicial depende diretamente da qualidade da documentação médica apresentada. Reúna:

  • Prescrição médica — do endocrinologista ou diabetologista, com CRM, indicando expressamente o FreeStyle Libre (ou SMCG equivalente), justificativa clínica e periodicidade
  • Laudo detalhado — relatório do médico assistente explicando por que o monitoramento contínuo é superior ao glicosímetro convencional para o caso concreto do paciente
  • Histórico clínico — episódios de hipoglicemia, internações por cetoacidose, hemoglobina glicada (HbA1c) dos últimos meses
  • Negativa formal — carta ou protocolo de negativa da operadora; se verbal, anotar data, nome do atendente e protocolo de atendimento
  • Contrato do plano — carteirinha, condições gerais e comprovante de pagamento das mensalidades (comprovar adimplência)
  • Orçamento do sensor — nota fiscal ou orçamento da farmácia/distribuidora

Como funciona a tutela de urgência neste caso

A tutela de urgência é o instrumento processual que permite ao juiz determinar, de forma provisória e imediata, que a operadora forneça o sensor antes que o processo seja julgado definitivamente. Para obtê-la, o advogado precisa demonstrar ao juiz:

  • Fumus boni iuris (probabilidade do direito): baseada na RN 539/2022, na Súmula 102 do TJSP e no Tema 1082 do STJ
  • Periculum in mora (perigo na demora): o risco concreto de hipoglicemia grave, crises de cetoacidose ou complicações irreversíveis decorrentes do controle glicêmico inadequado

Quando bem fundamentada, a liminar costuma ser concedida em 24 a 48 horas. O juiz então intima a operadora, que deve cumprir a ordem sob pena de multa diária (astreinte) de valor suficiente para compelir o cumprimento.

E se o plano descumprir a liminar?

Caso a operadora não forneça o sensor dentro do prazo fixado pelo juiz, o paciente pode:

  • Requerer o bloqueio de valores da operadora via sistema SISBAJUD (bloqueio judicial online) para custear a aquisição direta do sensor
  • Acumular as astreintes (multa diária), que se tornam crédito exigível em fase de cumprimento de sentença
  • Comunicar o descumprimento à ANS para abertura de processo administrativo contra a operadora

Conclusão

A negativa do sensor FreeStyle Libre por planos de saúde é uma das questões com maior taxa de sucesso judicial em Direito da Saúde. Com documentação médica adequada e atuação jurídica imediata, é possível obter a liminar judicial em prazo compatível com a urgência do caso. Pacientes com Diabetes tipo 1, histórico de hipoglicemia grave ou controle glicêmico inadequado têm especialmente fortes fundamentos para a ação.

Nota informativa: Este artigo possui caráter estritamente educativo e informativo sobre os direitos dos pacientes e a jurisprudência dominante em Direito da Saúde. Não constitui consulta jurídica, aconselhamento legal ou análise de caso concreto. Caso necessite de suporte ou queira enviar documentos para triagem interna, utilize os meios de comunicação oficiais do escritório.

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